Fonte: El Colombiano
A Colômbia está consumindo seu futuro energético mais rapidamente do que consegue repô-lo. É o que confirma o mais recente Relatório de Reservas e Recursos da Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH), publicado em 23 de junho.
O dado mais revelador é a forte queda das reservas de gás natural entre 2018 e 2025: nesse período, as reservas provadas do país diminuíram 54,6%.
Em termos concretos, a Colômbia passou de contar com uma sólida reserva energética para dispor hoje de apenas 1.717 bilhões de pés cúbicos (Bpc) de gás, o menor volume registrado em décadas e menos da metade do que possuía há apenas sete anos.
O colapso em números: sete anos consecutivos de deterioração
Em 2025, as reservas provadas de gás natural (categoria 1P) totalizaram 1.717 Bpc, representando uma redução de 347 Bpc em relação a 2024, equivalente a uma queda de 16,8% em apenas um ano.
O cenário torna-se ainda mais preocupante quando comparado à média dos últimos dez anos, de 3.259 Bpc, o que representa uma redução de 47,3%.
O ano de 2025 também foi particularmente negativo em relação à incorporação de novas reservas. A ANH informou que a incorporação líquida anual foi de -58 Bpc, um resultado negativo que contrasta com os 42 Bpc incorporados em 2024 e com a média histórica da última década, de 146 Bpc por ano.
Como consequência, o índice de reposição de reservas ficou em -20%, o que significa, em termos práticos, que a Colômbia está extraindo mais gás do subsolo do que consegue certificar como novas reservas. Esse indicador ficou 32 pontos percentuais abaixo do registrado em 2024.
A produção também recuou. Em 2025 foram comercializados 290 Bpc de gás, 61 Bpc a menos que em 2024, uma redução de 17,4%, e 95 Bpc abaixo da média anual da última década, de 385 Bpc.
A ANH destacou que a relação reservas/produção (R/P) permaneceu em 5,9 anos, o mesmo nível do ano anterior. À primeira vista, esse dado pode sugerir estabilidade. No entanto, especialistas e o próprio relatório alertam que essa interpretação pode ser enganosa.
O motivo é simples: quando a produção diminui, as reservas aparentam durar mais tempo, não porque existam mais reservas, mas porque o consumo é menor. É como um paciente que faz um medicamento durar mais tempo porque reduziu a dose, e não porque recebeu mais remédios.
A própria ANH confirma isso em seu relatório: caso a produção de 2024 (351 Bpc) tivesse sido mantida, a relação R/P em 2025 teria caído para 4,9 anos, ou seja, um ano a menos do que o indicador atualmente divulgado.
Para compreender a dimensão da deterioração, basta comparar com o passado. Em 2007, quando as reservas atingiram seu pico histórico, a relação R/P era de 14,1 anos. Hoje, ela está 8,2 anos abaixo desse nível e 2,2 anos inferior à média da última década.
O mapa do gás colombiano: onde estão as reservas remanescentes
Mais de 95% das reservas de gás da Colômbia concentram-se em apenas cinco bacias sedimentares. A Cordilheira Oriental lidera com 41,6% do total, seguida pelo Vale Inferior do Magdalena (19,6%), pela Guajira offshore (17%), pelos Llanos Orientales (9,1%) e pelo Vale Médio do Magdalena (7,8%).
Diversos desses campos são considerados maduros, ou seja, já atingiram elevado grau de esgotamento e sua capacidade produtiva diminui naturalmente com o tempo. Essa maturidade é justamente uma das principais razões para a rápida redução das reservas.
Há, entretanto, um dado que oferece alguma perspectiva positiva. Os chamados recursos contingentes de gás — volumes já identificados, mas ainda não certificados como reservas — alcançam 10.540 Bpc na categoria 3C.
Desse total, 74,5% (equivalente a 7.855 Bpc) localizam-se em áreas offshore do Caribe colombiano.
O problema é que transformar esses recursos em reservas comercialmente exploráveis não é um processo automático. Cerca de 55% desses recursos enfrentam restrições ambientais e sociais, 29% dependem da resolução de questões legais ou contratuais e 9% apresentam obstáculos técnicos. Em outras palavras, a Colômbia sabe onde há gás, mas ainda não consegue produzi-lo.
A ANH destacou que as novas descobertas reforçam a importância de ampliar a exploração e administrar de forma eficiente os desafios sociais, técnicos e ambientais para incorporar novos volumes, especialmente na região do Caribe colombiano.
A política energética de Petro e a redução da exploração
O contexto político é inseparável dessa análise. O presidente Gustavo Petro fez da transição energética uma das principais bandeiras de seu governo e, dentro dessa estratégia, optou por não firmar novos contratos de exploração de hidrocarbonetos.
Em vez disso, sua prioridade tem sido ampliar o uso de fontes renováveis e reduzir a dependência do petróleo e do gás.
Essa política também se reflete nos dados da ANH. Em 2025, as novas incorporações de reservas de petróleo provenientes de descobertas somaram apenas 4 milhões de barris, um volume 95,3% inferior à média de 85 milhões de barris registrada entre 2012 e 2018.
No caso do gás, embora as descobertas tenham incorporado 60 Bpc em 2025 — o maior volume desde 2021 e 104% acima da média da última década — esse ganho foi completamente neutralizado por revisões técnicas negativas, que reduziram as reservas em 125 Bpc.
O resultado líquido foi negativo: a Colômbia incorporou menos gás do que consumiu e menos do que perdeu em revisões técnicas.
A indústria faz um alerta
As entidades representativas do setor energético reagiram aos dados divulgados pela ANH.
A Naturgas (Associação Colombiana de Gás Natural) afirmou que a queda acumulada de 46% nas reservas provadas nos últimos cinco anos deve ser entendida como um chamado urgente à ação.
“A Colômbia possui gás natural tanto em terra quanto offshore e dispõe do conhecimento técnico necessário para desenvolvê-lo. O que precisamos é acelerar a execução dos projetos para transformar esses recursos em energia disponível para os colombianos”, afirmou Luz Stella Murgas, presidente da Naturgas.
Ela também alertou para a importância desse cenário diante da possível ocorrência de um fenômeno El Niño. Em períodos de seca, o gás natural é o combustível responsável por dar suporte à geração elétrica quando os reservatórios hidrelétricos apresentam baixos níveis. Sem reservas suficientes, essa margem de segurança fica comprometida.
Por sua vez, Nelson Castañeda, presidente executivo da Campetrol, propôs quatro pilares para enfrentar a crise:
- reativar a exploração;
- aumentar o fator de recuperação dos campos existentes;
- acelerar o desenvolvimento de projetos offshore;
- avançar no aproveitamento responsável de jazidas não convencionais.
Segundo ele, isso exigirá processos ambientais e de consulta prévia mais ágeis, melhores condições de segurança para as operações, um ambiente competitivo capaz de atrair investimentos e uma institucionalidade sólida.
Cresce a dependência das importações
Diante do déficit de produção nacional, a Colômbia vem recorrendo cada vez mais às importações de gás para atender à demanda interna.
Como resposta, a indústria avança em diversos projetos de regaseificação, destinados à importação de gás natural liquefeito (GNL) e sua posterior distribuição, localizados em Cartagena, Buenaventura, Coveñas (Sucre) e Ballena (La Guajira). Soma-se a isso a infraestrutura já em operação em Cartagena, por meio da Sociedad Portuaria El Cayao (SPEC).
Embora essas soluções sejam consideradas necessárias no curto prazo, a indústria ressalta que elas não podem representar a única resposta ao problema. A dependência das importações aumenta a exposição aos preços internacionais, às interrupções nas cadeias globais de suprimento e à perda gradual da soberania energética do país.
Fonte: El Colombiano
