O Fórum GLP 2026, realizado em Santo Domingo, foi mais do que um encontro técnico sobre GLP. Para quem acompanha o setor na América Latina, o evento serviu como uma boa fotografia do momento vivido pela República Dominicana: um país que já ocupa posição relevante no consumo regional, mas que agora enfrenta o desafio de transformar escala em maturidade regulatória, segurança operacional e inovação.

Ao longo dos debates, ficou evidente que o mercado dominicano tem características muito próprias. O GLP está profundamente presente na vida cotidiana da população, seja no uso residencial, comercial ou no transporte. Essa presença faz com que o combustível tenha um papel que vai além da matriz energética: ele participa da dinâmica econômica, da mobilidade urbana e da rotina das famílias.

Um dos pontos que mais chama atenção é o peso do GLP veicular. A República Dominicana construiu, ao longo das últimas décadas, uma posição de destaque no uso de autogás. Em poucos países da região o GLP tem participação tão expressiva no transporte. Isso demonstra capacidade de adaptação do mercado, aceitação do consumidor e existência de uma infraestrutura que, em muitos aspectos, pode servir de referência para outros países latino-americanos.

Mas esse mesmo segmento, que por muitos anos puxou o crescimento do setor, hoje mostra sinais de desaceleração. A renovação da frota, as restrições para conversão de veículos mais modernos e as garantias oferecidas pelas montadoras criam obstáculos que não existiam com a mesma intensidade no passado. O mercado dominicano, portanto, parece estar entrando em uma nova fase: menos marcada pela expansão espontânea e mais dependente de políticas públicas, incentivos adequados e soluções técnicas compatíveis com a evolução da indústria automotiva.

Essa transição não deve ser vista como sinal de fraqueza. Pelo contrário, é típica de mercados que alcançaram um nível mais alto de desenvolvimento. Quando o consumo cresce, também crescem as responsabilidades. E o Fórum deixou claro que segurança, regulação, fiscalização e medição precisam estar no centro da agenda.

Um tema especialmente sensível é o uso irregular de tanques e instalações de GLP. À primeira vista, pode parecer uma disputa comercial entre empresas. Mas, na prática, trata-se de uma questão muito mais ampla. O uso indevido de ativos, o enchimento não autorizado e a operação irregular de tanques afetam a segurança da população, geram riscos operacionais, distorcem a concorrência e comprometem a confiança em toda a cadeia.

É justamente nesse ponto que a regulação ganha papel central. Mais do que editar normas, o regulador sinaliza ao mercado o grau de seriedade institucional com que o setor será tratado. Uma regulação clara, acompanhada de fiscalização efetiva, é provavelmente o principal sinal que o poder público pode dar para fomentar investimentos no GLP. Quando o investidor percebe que os ativos serão protegidos, que a concorrência será equilibrada e que operações não autorizadas serão coibidas, cria-se um ambiente mais previsível para ampliar infraestrutura, modernizar instalações e adotar novas tecnologias.

Por outro lado, quando a fiscalização é frágil, o efeito é inverso. Empresas que cumprem normas, investem em segurança e mantêm estruturas formais passam a competir com operadores que não assumem os mesmos custos nem as mesmas responsabilidades. Isso reduz o incentivo ao investimento, fragiliza a segurança operacional e dificulta a profissionalização do setor. Portanto, combater a operação não autorizada de tanques e outros ativos é uma política de desenvolvimento setorial.

Nesse ponto, a República Dominicana tem diante de si uma oportunidade importante: usar a regulação e a tecnologia de forma integrada para melhorar a rastreabilidade e o controle do mercado. Sistemas de rastreabilidade de tanques, monitoramento em tempo real, videovigilância e marcações permanentes nos recipientes não são apenas ferramentas empresariais, são instrumentos de política pública, capazes de proteger consumidores, operadores e investimentos.

Outro aspecto fundamental é a medição. Um mercado moderno de GLP precisa garantir que o produto entregue seja medido corretamente, com instrumentos calibrados, normas claras e fiscalização eficiente. A atuação do Indocal nesse debate é relevante porque coloca a metrologia no lugar em que ela deve estar: no centro da confiança entre quem vende, quem distribui, quem fiscaliza e quem consome.

Sem medição confiável, não há mercado plenamente transparente. E sem transparência, surgem perdas econômicas, disputas comerciais e insegurança para o consumidor. Por isso, a modernização dos controles e dos sistemas de calibração é uma etapa indispensável para o próximo ciclo do GLP dominicano.

O que se percebe, olhando para o conjunto das discussões, é que a República Dominicana já superou a fase em que o principal desafio era simplesmente ampliar o acesso ao GLP. O país tem consumo, infraestrutura, operadores relevantes e uma cultura consolidada de uso do combustível. O novo desafio é outro: organizar melhor esse mercado, proteger seus ativos, reforçar padrões técnicos e criar condições para que o GLP continue sendo competitivo nos próximos anos.

Esse é justamente o ponto mais interessante do caso dominicano. O país reúne oportunidades e alertas ao mesmo tempo. Tem um mercado forte, mas que precisa se adaptar. Tem alta penetração do GLP veicular, mas enfrenta obstáculos para manter esse ritmo. Tem operadores experientes, mas precisa de maior coordenação regulatória. Tem instituições técnicas atuantes, mas ainda precisa avançar em infraestrutura metrológica e fiscalização.

Em minha visão, a República Dominicana pode se tornar uma referência regional não apenas pelo volume de consumo, mas pela forma como decidirá enfrentar esses desafios. O futuro do GLP no país dependerá da capacidade de combinar três elementos: segurança, fiscalização efetiva e previsibilidade regulatória. A inovação virá como consequência natural de um ambiente em que investir seja seguro, competir seja justo e operar dentro das regras seja valorizado.

O Fórum GLP RD 2026 mostrou que esse diálogo já começou. Agora, o mais importante é transformar o debate em agenda prática. O mercado dominicano tem escala suficiente para liderar, experiência suficiente para ensinar e desafios suficientes para inovar. Essa combinação faz da República Dominicana um dos mercados de GLP mais interessantes da América Latina — e, sem dúvida, um caso que merece ser acompanhado de perto.

Fabrício Duarte

Diretor Executivo