A Venezuela voltou ao centro do debate sobre o GLP no início de 2026 com um anúncio de forte carga política: o governo comunicou a chamada “primeira exportação” de gás liquefeito de petróleo do país, apresentada como um marco histórico e como evidência de retomada da indústria energética. Segundo informações divulgadas por fontes oficiais, o navio Chrysopigi Lady teria zarpado com o primeiro carregamento de GLP, sem que fossem informados o destino final, o volume embarcado, a especificação do produto ou os termos comerciais da operação. A narrativa foi amplamente repercutida por meios de comunicação estatais e alinhados ao governo, reforçando o simbolismo da “primeira molécula exportada”, mas, novamente, sem a divulgação de dados técnicos mínimos que permitam avaliar se se trata do início de um fluxo exportador regular ou apenas de um evento pontual.
Essa distinção entre um embarque isolado e uma capacidade exportadora efetiva é fundamental para compreender por que a Venezuela segue sendo, hoje, um caso de capacidade incerta de exportação de GLP. Um carregamento inaugural pode ocorrer por razões circunstanciais — acúmulo episódico de produto, rearranjos logísticos temporários, janelas operacionais curtas ou vendas oportunistas via intermediários —, mas isso não equivale à existência de uma oferta sustentável. Exportar GLP de forma regular exige, simultaneamente, produção contínua e previsível, excedente estrutural sobre o consumo interno, capacidade de armazenamento operacional para formação de lotes e uma logística portuária e marítima confiável, com programação, documentação e cumprimento regulatório. Em mercados de GLP, capacidade exportadora não é um evento isolado; é uma sequência repetida ao longo do tempo, baseada em previsibilidade, transparência e confiabilidade operacional.
O ponto central do caso venezuelano é que falta o elemento básico para qualquer diagnóstico técnico sério: informação pública confiável. Nem o anúncio do embarque nem as comunicações oficiais associadas apresentaram dados essenciais, como composição do GLP (propano, butano ou mistura), qualidade do produto, origem do gás, volumes, comprador, porto de destino ou frequência esperada das exportações. Essa ausência de informações não é apenas um detalhe: ela inviabiliza qualquer avaliação independente sobre a real capacidade produtiva e logística do país. Não por acaso, organizações da sociedade civil venezuelana solicitaram formalmente ao governo a divulgação do contrato de comercialização de GLP anunciado, exigindo acesso aos termos, às partes envolvidas e às condições do acordo, como forma de enfrentar o histórico de opacidade que marca a gestão do setor energético no país. Quando uma exportação é apresentada como “histórica”, mas o contrato permanece inacessível e os parâmetros técnicos não são divulgados, o mercado tende a tratar o caso como de alto risco informacional, no qual não apenas a operação é incerta, mas os próprios fatos básicos não podem ser verificados.
Essa incerteza informacional se conecta diretamente à realidade industrial. O GLP venezuelano depende majoritariamente de cadeias associadas ao refino e ao processamento de gás, que exigem infraestrutura funcional de compressão, tratamento e fracionamento, fornecimento estável de energia elétrica, instrumentação confiável e manutenção contínua. Esses elementos sofreram, ao longo dos últimos anos, um processo prolongado de deterioração técnica, com paradas recorrentes, falhas operacionais e perda de capacidade humana e institucional. Nesse contexto, mesmo que um embarque tenha sido realizado, não há garantia de que o sistema seja capaz de repetir a operação com regularidade, previsibilidade e segurança.
Há ainda um segundo eixo crítico frequentemente ausente do discurso oficial: o balanço entre oferta e demanda doméstica. Mesmo em cenários nos quais algum volume de GLP possa ser produzido, a exportação regular só é viável quando existe excedente claro após o atendimento do consumo interno. Na Venezuela, o GLP é um produto socialmente sensível, historicamente marcado por escassez e distribuição irregular. Nessas condições, a prioridade política tende a ser o abastecimento doméstico, e qualquer tentativa de exportar em um contexto de fragilidade interna implica custos sociais elevados e riscos políticos relevantes. Do ponto de vista técnico, não basta elevar carga de refinaria ou realizar ajustes pontuais: exportar de forma contínua exige produção estável, armazenagem funcional, logística portuária confiável e excedente estrutural — elementos que hoje não podem ser confirmados por falta de dados públicos auditáveis. A Venezuela, nesse sentido, permanece um verdadeiro “enigma operacional”.
Quando se tenta projetar um horizonte de normalização, a análise também impõe cautela. Mesmo em um cenário relativamente favorável, com investimentos relevantes e maior estabilidade operacional, o retorno a níveis de produção que permitam exportações regulares de GLP tenderia a exigir de dois a quatro anos. Em cenários menos benignos, nos quais persistam restrições logísticas, dificuldades de acesso a insumos, falhas de infraestrutura e erosão técnica, esse horizonte pode facilmente se estender para além de cinco anos. Gargalos como energia elétrica, sistemas de compressão e tratamento de gás, fracionamento, bombas, instrumentação e cadeias de suprimento formam um conjunto de limitações estruturais que não se resolve com anúncios pontuais ou com um único carregamento.
A esse quadro se soma um fator externo particularmente relevante no caso venezuelano: o risco geopolítico e regulatório. A volatilidade das decisões políticas, as incertezas sobre regimes de licenças, sanções e relações internacionais afetam diretamente a logística, o seguro, o frete marítimo, a contratação de navios e o apetite dos compradores. Mesmo quando operações se concretizam, elas tendem a ocorrer com custos indiretos mais elevados, maior dependência de intermediários e menor previsibilidade de fluxo, o que limita a competitividade do produto venezuelano no mercado regional.
Do ponto de vista da América do Sul, a consequência é clara. Enquanto outros países vêm transformando crescimento de produção em capacidade logística e exportadora consistente, a Venezuela ainda precisa reconstruir sua base operacional, sua governança e a credibilidade de suas informações para voltar a gerar excedentes exportáveis de forma previsível. Além disso, qualquer tentativa de reposicionamento ocorre em um mercado no qual os Estados Unidos seguem como principal fornecedor de GLP para a região, reduzindo o espaço para que a Venezuela recupere automaticamente um papel de liderança.
Em síntese, a Venezuela pode ter realizado um primeiro embarque de GLP, com valor simbólico e político, mas sua capacidade de exportação permanece incerta. O país ainda não oferece os elementos que o mercado exige para transformar um anúncio em um fluxo sustentável: transparência contratual, dados operacionais auditáveis — produção, estoques, qualidade e capacidade logística —, histórico de confiabilidade e um sinal inequívoco de excedente estrutural sobre o consumo interno. Enquanto essas condições não forem atendidas, o GLP venezuelano continuará sendo percebido como um produto de alta volatilidade, elevado risco informacional e baixa previsibilidade, mais associado a uma narrativa política do que a uma realidade exportadora consolidada.
Fabrício Duarte
Diretor Executivo
