A formação de um novo episódio de El Niño de forte intensidade volta a expor a América Latina aos efeitos combinados da variabilidade climática e do aquecimento global. Secas, ondas de calor, incêndios, chuvas extremas, inundações e deslizamentos tendem a pressionar ainda mais as economias e os sistemas energéticos da região, já marcados pela desigualdade, por limitações de infraestrutura e pela elevada vulnerabilidade social.

A expressão “super El Niño” não corresponde a uma categoria oficial única, mas é utilizada para descrever episódios excepcionalmente intensos, nos quais as águas do Pacífico equatorial atingem temperaturas muito superiores à média. El Niño é um fenômeno natural e periódico. As mudanças climáticas, por sua vez, decorrem do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Embora distintos, ambos podem atuar simultaneamente e ampliar a severidade dos impactos.

Organismos como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Organização Latino-Americana de Energia (OLADE) e a Agência Internacional de Energia (IEA) convergem em um ponto essencial: a região precisa de sistemas energéticos mais resilientes, diversificados e capazes de manter o abastecimento diante de eventos extremos.

Na América Latina, a transição energética não pode ser tratada apenas como uma agenda de substituição tecnológica ou de redução de emissões. Ela precisa ser uma estratégia de adaptação climática, segurança energética, inclusão social e desenvolvimento econômico.

A região possui condições privilegiadas. Conta com abundantes recursos solares, eólicos, hídricos, geotérmicos e de bioenergia, além de minerais e reservas energéticas estratégicas. Sua matriz elétrica já apresenta elevada participação de fontes renováveis, especialmente da hidreletricidade.

Essa elevada participação da hidreletricidade também traz desafios. A forte dependência das hidrelétricas torna os sistemas elétricos sensíveis à redução das chuvas, à diminuição das vazões e ao aumento da evaporação. Durante secas prolongadas, a geração pode cair justamente quando as ondas de calor elevam o consumo de eletricidade.

No sentido oposto, chuvas intensas, enchentes e deslizamentos podem comprometer barragens, linhas de transmissão, subestações, estradas, terminais e sistemas logísticos. O desafio, portanto, não está apenas em ampliar a geração renovável, mas em garantir que a energia seja produzida, transportada e entregue com confiabilidade.

Nesse sentido, avançar na transição energética exige diversificar a matriz, expandir as fontes renováveis, ampliar a transmissão, desenvolver sistemas de armazenamento e aprofundar a integração regional. Também exige preparar a infraestrutura para condições climáticas mais severas.

Entretanto, diversificar não significa abandonar fontes existentes antes que alternativas seguras, acessíveis e escaláveis estejam disponíveis. Uma transição precipitada pode fragilizar os sistemas, elevar os custos e comprometer o abastecimento, atingindo principalmente as famílias mais vulneráveis.

Essa preocupação é especialmente relevante porque a pobreza energética continua sendo uma realidade latino-americana. Segundo a OLADE, em 2024 aproximadamente 78 milhões de pessoas ainda utilizaram lenha para cozinhar ou aquecer suas residências, o equivalente a cerca de 12% da população regional.

A dependência de lenha, carvão vegetal, resíduos e querosene prejudica a qualidade do ar dentro das residências e aumenta o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares. Mulheres, crianças e idosos estão entre os grupos mais expostos. Além disso, a coleta de lenha consome tempo que poderia ser destinado à educação, ao trabalho e à geração de renda.

Combater essa realidade também é promover a transição energética. Substituir combustíveis poluentes por soluções modernas gera benefícios imediatos para a saúde, a produtividade, a igualdade de gênero, a preservação ambiental e a qualidade de vida.

Nesse contexto, o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) deixa de ser apenas um combustível e passa a ser um instrumento de inclusão energética. Graças à facilidade de transporte e armazenamento e à sua ampla capilaridade logística, consegue chegar onde outras soluções ainda enfrentam limitações técnicas ou econômicas, oferecendo uma alternativa moderna ao uso da lenha. Esse papel é reconhecido tanto pela Agência Internacional de Energia (IEA), que atribui ao GLP parte significativa do avanço da América Latina no acesso à cocção limpa, quanto pela Organização Latino-Americana de Energia (OLADE), que o identifica como uma das principais alternativas para substituir a biomassa tradicional.

Esses dados demonstram que não existe uma solução única para a pobreza energética. A eletrificação deve avançar, mas sua adoção na cocção depende de redes confiáveis, oferta suficiente, instalações residenciais adequadas, equipamentos acessíveis e tarifas compatíveis com a renda das famílias — condições que ainda não estão presentes em grande parte da América Latina.

Restringir prematuramente o uso do GLP, sem oferecer uma alternativa igualmente segura, acessível e disponível, pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado. Famílias incapazes de arcar com novos equipamentos ou com o custo da energia podem retornar à lenha ou outros combustíveis contaminantes.

O papel do GLP deve ser avaliado em comparação com a fonte que ele efetivamente substitui. Para uma família que utiliza lenha em um fogão rudimentar, a migração para o GLP representa um avanço tecnológico, sanitário, social e ambiental.

Além da cocção, o GLP sustenta restaurantes, padarias, hotéis, hospitais, escolas, lavanderias, atividades agrícolas, pequenos comércios e indústrias. Em inúmeras localidades, garante o funcionamento de negócios que não dispõem de outra fonte energética confiável.

O GLP também fortalece a resiliência dos sistemas energéticos. Por ser uma fonte armazenável e transportável, cuja distribuição não depende de linhas de transmissão, gasodutos ou redes locais, pode continuar disponível mesmo quando enchentes, incêndios, tempestades ou deslizamentos comprometem parte da infraestrutura convencional. Essa característica torna-se ainda mais relevante diante de fenômenos como o El Niño, capazes de afetar simultaneamente a geração hidrelétrica, a demanda por eletricidade e as redes de transporte e distribuição, contribuindo para a continuidade de atividades e serviços essenciais durante emergências.

Construir uma matriz energética resiliente exige diversificar fontes, tecnologias e rotas logísticas, acelerando a expansão das energias renováveis, da eficiência energética, do armazenamento e da integração regional. Nesse contexto, o GLP desempenha um papel complementar ao oferecer uma fonte de energia descentralizada, disponível sob demanda e capaz de reforçar a segurança do abastecimento. A verdadeira transição energética não consiste em substituir uma fonte por outra, mas em construir uma matriz cada vez mais diversificada, incorporando novas tecnologias sem abandonar, de forma prematura, aquelas que ainda desempenham um papel essencial na segurança energética, no combate à pobreza energética e na resiliência dos sistemas.

Para milhões de latino-americanos, o GLP não é uma energia do passado. É a alternativa moderna à lenha, a garantia de uma refeição preparada com segurança, a energia que mantém pequenos negócios em funcionamento e um dos instrumentos mais eficazes para construir uma transição energética verdadeiramente inclusiva. Porque uma transição justa não é aquela que exclui soluções, mas a que amplia as opções disponíveis para reduzir emissões, fortalece a segurança energética e garante que ninguém fique para trás.

Fabrício Duarte

Diretor Executivo