Fonte / Imagem: Portafolio

A Colômbia deixou de ser autossuficiente em gás natural em 2024. A produção caiu 17,1% em 2025.

A redução da produção nacional de gás natural, o aumento das importações e a pressão adicional que poderia ser gerada por um novo fenômeno El Niño abriram um debate no setor energético sobre o papel que outros combustíveis poderiam assumir na Colômbia.

Entre eles, o Gás Liquefeito de Petróleo (GLP) começou a ganhar espaço como uma alternativa para indústrias, comércios e alguns segmentos residenciais diante da incerteza sobre o abastecimento e do aumento dos custos do gás natural. Mas será que ele é realmente a opção mais eficiente?

O país deixou para trás a autossuficiência em gás que manteve por mais de quatro décadas. As reservas provadas caíram para 2.064 gigapés cúbicos, equivalentes a 5,9 anos de consumo, segundo dados da Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH). Ao mesmo tempo, a produção nacional vem diminuindo e os campos tradicionais mostram sinais de esgotamento, enquanto os novos projetos ainda não entram em operação.

Frank Pearl, presidente executivo da Associação Colombiana do Petróleo e Gás (ACP), explicou que o país atravessa uma “restrição estrutural na oferta”. Segundo detalhou, em 2024 foram comercializados 351 gigapés cúbicos de gás, mas apenas 42 gigapés cúbicos novos foram incorporados às reservas.

“Para cada 10 pés cúbicos produzidos, apenas 1,2 novo foi adicionado”, afirmou Pearl. Ele acrescentou que a produção média de 2025 caiu 17,1% em relação a 2024 e que a oferta local comercializada diminuiu cerca de 22% em comparação com os níveis registrados em 2023.

A menor disponibilidade local obrigou o país a aumentar as compras externas de Gás Natural Liquefeito (GNL). Até poucos anos atrás, as importações representavam uma participação marginal no mercado nacional, mas atualmente cobrem cerca de um quarto do consumo e poderiam aumentar caso ocorra um período prolongado de seca.

A pressão sobre o sistema energético

A preocupação do setor se concentra no segundo semestre do ano, quando poderia se consolidar um fenômeno El Niño, aumentando o uso de usinas térmicas para garantir o fornecimento de eletricidade. Esse cenário elevaria a demanda de gás para geração de energia e pressionaria ainda mais um mercado que já apresenta sinais de restrição.

Julio Vera, especialista do setor energético, explicou que atualmente o país produz cerca de 728 GBTU diários, enquanto o consumo supera 900 GBTU por dia. Parte dessa diferença é coberta com gás importado por meio da planta de regaseificação de Cartagena.

No entanto, Vera alertou que o problema poderia se agravar se as térmicas precisarem de mais combustível durante o fenômeno climático. “A demanda de gás para o setor térmico pode subir para níveis entre 475 e 530 GBTU diários, e o gás da planta de regaseificação não seria suficiente”, indicou.

A infraestrutura de importação também aparece como um fator crítico. O terminal de Cartagena tem capacidade limitada de regaseificação e grande parte dela está comprometida para respaldar a operação das usinas térmicas. Isso deixa uma margem reduzida para atender residências, indústrias, comércios e veículos.

Pearl afirmou que, se aumentar de maneira significativa a necessidade de acionar as térmicas, o país enfrentará decisões complexas sobre a alocação do combustível disponível. “Poderia acontecer de haver gás suficiente para as residências, mas não para acionar as indústrias e os comércios”, sustentou.

Jaime Checa, especialista do setor, concordou que o risco de déficit aumentou nos últimos anos. Segundo lembrou, projeções baseadas em dados da ANH e do Gestor do Mercado mostram que a falta de gás poderia alcançar 37% no primeiro semestre de 2027 e chegar a 46% em cenários associados ao El Niño.

A esse panorama soma-se o aumento de preços derivado da dependência de importações. O gás comprado nos mercados internacionais deve passar por processos de liquefação, transporte marítimo e regaseificação, o que eleva os custos finais para empresas e usuários.

A volatilidade internacional também começou a influenciar o mercado colombiano. Pearl explicou que conflitos geopolíticos recentes impulsionaram os preços internacionais do GNL e alertou que qualquer choque externo acaba se refletindo nas faturas dos consumidores.

GLP e carvão ganham espaço

Em meio a esse cenário, diferentes setores industriais começaram a migrar para outros energéticos. O GLP aparece como uma das opções que mais vem ganhando espaço por sua disponibilidade e custos competitivos frente ao gás importado.

Luz Stella Murgas explicou que várias empresas começaram a substituir o gás natural por outros combustíveis devido ao aumento dos custos de produção. “Os industriais estão tendo incentivos para migrar para outros energéticos devido ao encarecimento dos custos de produção do gás natural”, afirmou.

Segundo dados apresentados pela dirigente gremial, a substituição energética se distribuiu em 50% para GLP, 23% para carvão, 12% para bagaço, 10% para fuel oil e 5% para eletricidade.

Vera indicou que o GLP, o carvão e os combustíveis líquidos começaram a se consolidar como alternativas “competitivas do ponto de vista econômico e confiáveis em matéria de abastecimento nacional”. Acrescentou que a diversidade da matriz energética colombiana permitiu amortecer parte da pressão gerada pela queda do gás natural.

No entanto, a mudança para o GLP não pode ser feita de forma imediata nem sem ajustes técnicos. Diferentemente do gás natural, o GLP exige modificações em fogões, aquecedores, caldeiras e equipamentos industriais para operar com segurança.

Entre as adaptações necessárias estão a troca de bicos ou injetores, a instalação de reguladores especiais de pressão e a calibração da mistura entre ar e combustível.

As diferenças físicas entre ambos os combustíveis também obrigam a reforçar as medidas de segurança. Enquanto o gás natural é mais leve que o ar e se dispersa com facilidade, o GLP tende a se acumular próximo ao solo em caso de vazamento, exigindo melhores condições de ventilação.

Pearl afirmou que o GLP pode cumprir um papel complementar em alguns segmentos residenciais, comerciais e industriais, embora tenha esclarecido que ele não substitui estruturalmente a demanda de gás natural nem a necessidade de respaldo térmico para o sistema elétrico.

Checa destacou que o deslocamento para GLP e carvão reflete a falta de segurança sobre o fornecimento de gás natural e alertou que o país ainda conta com recursos importantes que não foram incorporados à produção.

De acordo com dados da ANH citados pelo especialista, a Colômbia possui 7,4 terapés cúbicos de recursos contingentes de gás, ou seja, volumes descobertos que ainda não podem entrar em operação devido a barreiras técnicas, ambientais, econômicas ou de infraestrutura. A maior parte desses recursos está em projetos offshore.

Entre os projetos mencionados pelos especialistas estão desenvolvimentos no Piedemonte Llanero, no Vale Inferior do Magdalena e em áreas offshore do Caribe, como Sirius, Copoazú e as descobertas Kronos, Glaucus e Gordon. No entanto, vários deles entrariam em produção apenas no fim da década.

Enquanto esses desenvolvimentos avançam, o mercado energético continuará dependendo de importações e de combustíveis substitutos para atender à demanda. As entidades do setor insistem que acelerar licenças, ampliar a infraestrutura e promover novos investimentos será determinante para enfrentar a pressão crescente sobre o sistema de gás nacional.

Fonte: Portafolio