Nas últimas semanas, o estreito de Ormuz tornou-se protagonista das notícias devido a circunstâncias graves, como já ocorreu anteriormente com a cidade de Aleppo (Síria) ou a região do Donbass (Ucrânia). Esse acidente geográfico é a única via de acesso marítimo ao Golfo Pérsico, onde se encontram alguns dos países produtores de gás e petróleo mais relevantes do mundo: Irã, Iraque, Catar, Emirados Árabes Unidos, entre outros. Por isso, o preço do petróleo bruto foi fortemente impactado pela guerra contra o Irã iniciada pelos Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro deste ano.
Um aumento nos preços do petróleo afeta quase imediatamente a economia global, pois ele é a base para a geração de energia e para o transporte.
No caso da energia, o impacto pode ser mitigado, em maior ou menor grau, dependendo do peso dos combustíveis fósseis na matriz energética de cada país.
Quanto ao transporte, o preço dos combustíveis aumentou em todos os casos, mas não da mesma forma. Por exemplo, na Espanha, considerando os preços médios, o gás liquefeito de petróleo (GLP), utilizado em muitos lares e veículos, aumentou até 9,8% nas três primeiras semanas de março, enquanto o diesel A subiu 29% no mesmo período.
A petroquímica é fundamental para entender as diferenças entre combustíveis
A razão dessa diferença, além das oscilações do mercado, tem uma base técnica: o tipo de petróleo e a petroquímica. Após ser extraído e pré-tratado, o petróleo bruto é uma mistura de muitos compostos, a maioria hidrocarbonetos (formados por hidrogênio e carbono). O restante, principalmente enxofre e nitrogênio, é considerado impureza. Assim, a qualidade do petróleo costuma ser determinada pelos tipos de hidrocarbonetos presentes e pela quantidade de compostos indesejados.
Para entender essa relação, é necessário aprofundar a diferença na natureza química dos diversos combustíveis fósseis. Eles são classificados principalmente pelo número de átomos de carbono em suas moléculas. Quanto maior o número de carbonos, mais pesado (denso) será o composto.
O GLP, por exemplo, é composto por hidrocarbonetos muito leves — propano e butano (com 3 e 4 átomos de carbono, respectivamente). Por isso, na indústria de refino, são conhecidos como fração C₃-C₄. Já a gasolina é formada por hidrocarbonetos entre 5 e 11 carbonos (C₅-C₁₁).
Em ordem crescente de número de carbonos, os principais grupos obtidos do petróleo são: gás natural ou metano (principalmente C₁-C₂), GLP (C₃-C₄), gasolina (C₅-C₁₁), querosene (C₈-C₁₆), diesel leve (A e B, quimicamente idênticos, C₁₂-C₁₈), diesel C (óleo para aquecimento, C₁₄-C₃₀) e fuelóleos (>C₂₀).
Para obter essas frações, as refinarias utilizam dois tipos principais de processos: conversão de hidrocarbonetos e processos de separação. Nos processos de conversão, moléculas curtas podem se unir para formar moléculas maiores (polimerização), ou moléculas longas podem se quebrar em várias menores (craqueamento).
Independentemente das reações aplicadas ao petróleo, a composição inicial da mistura determina em grande parte o resultado final. É muito mais econômico extrair diretamente certos compostos do que sintetizá-los para depois separá-los.
De forma geral, um petróleo leve e com poucas impurezas é mais fácil e barato de processar e gera maior proporção de produtos leves (como GLP e gasolina). Já um petróleo pesado e com mais impurezas é mais difícil de processar e tende a produzir compostos mais pesados (como diesel e fuelóleo).
No Oriente Médio, apenas 23,4% do petróleo é considerado leve, enquanto 75,6% do petróleo dos Estados Unidos possui essa característica. Assim, o petróleo do Oriente Médio gera mais produtos pesados, enquanto os leves são obtidos mais facilmente a partir do petróleo norte-americano.
Com Ormuz fechado, como obter petróleo pesado?
O petróleo pesado por excelência é o venezuelano. Denso, viscoso e rico em enxofre, sua extração, transporte e refino são complexos, exigindo processos avançados para se transformar em combustível.
Mesmo assim, o bloqueio do estreito de Ormuz torna os campos venezuelanos especialmente valiosos, pois podem servir como fonte alternativa de petróleo pesado para refinarias dos Estados Unidos que anteriormente utilizavam petróleo do Golfo Pérsico para produzir materiais pesados, como asfalto e lubrificantes.
Nem toda a petroquímica são combustíveis: os plásticos também sofrem
O petróleo também é matéria-prima para outros produtos além dos combustíveis. Os plásticos são um exemplo, e nesse caso as fábricas asiáticas são as mais afetadas pelo bloqueio de Ormuz, já que sua matéria-prima vem principalmente dos países do Golfo.
A ureia é outro produto petroquímico essencial, base da maioria dos fertilizantes e, portanto, fundamental para a agricultura. Atualmente, ela é produzida majoritariamente a partir do gás natural, cujo preço também é impactado pelo conflito no Golfo Pérsico. Desde o início da guerra, o preço da ureia aumentou 39%.
Enquanto países como Índia e Filipinas adotaram medidas extraordinárias para mitigar os impactos econômicos da guerra, a China possui a maior reserva de barris do mundo, podendo liberá-los para manter seu consumo enquanto negocia alternativas.
No momento, a melhor opção para a maioria dos países asiáticos é negociar com a Rússia para garantir fornecimento de petróleo. Após anos sob fortes sanções internacionais, espera-se que as receitas russas provenientes de petróleo e gás aumentem 70%.
Esse cenário energético, com o estreito de Ormuz fechado e os preços do petróleo em alta, não implica apenas que abastecer veículos ficou mais caro ou que os preços das passagens aéreas dispararam. Todos os produtos derivados da indústria petroquímica (combustíveis, fertilizantes, energia, entre outros) sofrerão as consequências — resta avaliar a dimensão de cada impacto.
Fonte: El Economista
